Minha história
Eu dirigi, e eu dependi. É a única coisa que explica por que eu estou aqui.
De onde eu venho
Nasci em Rio das Flores e cresci em Valença. Minha mãe era concursada da prefeitura e trabalhava na Secretaria de Saúde. Meu pai era balconista numa loja de material de construção. Minha avó morava com a gente e foi minha segunda mãe.
Estudei em escola pública a vida inteira. Quando chegou a minha vez de fazer faculdade, meus dois irmãos já estavam na faculdade e não dava para pagar uma terceira.
Então eu trabalhei. Fui secretária de um clube de dia para fazer cursinho à noite. Fazia bombom para vender no cursinho. Fazia bijuteria. Consegui uma bolsa, passei na federal, e fui fazer enfermagem na Anna Nery, no Rio.
E aí minha mãe adoeceu
Meus pais se separaram depois de vinte e quatro anos. Minha mãe sofreu muito, parou de trabalhar e ficou diferente.
Todos disseram que era depressão — fazia sentido. Ela fez terapia e tomou remédio de depressão por dois anos.
Era Alzheimer.
Fisicamente ela parecia ótima. Quem olhava não via nada. Mas já não conseguia comer sozinha direito. E como ninguém via, quase ninguém acreditava.
Cada caixa do remédio custava quatrocentos, quinhentos reais. A gente não tinha. Entramos na justiça pelo remédio. Entramos de novo pela aposentadoria dela.
A faculdade
Chegou uma hora em que eu não tinha mais como pagar a república onde morava no Rio. Uma amiga, a Laila, falou que tinha vagado um quarto no alojamento da universidade. Pegamos o Fusca dela, fizemos duas viagens, e eu entrei lá escondida.
Poucos dias depois bateram na porta. Era a diretora do alojamento. E eu falei — eu lembro exatamente — "se abrir essa porta eu me jogo da janela".
Ela disse: vamos conversar. Eu abri. Ela me abraçou.
Deram. Os colegas e os professores ajudaram, eu regularizei a situação e fiquei no alojamento até me formar, em 2011.
Eu sei o que uma pessoa estendendo a mão faz na vida de alguém. É a única coisa que eu sei fazer desde então.
Dezessete anos
Por anos foram três na casa: eu, minha mãe e minha avó — que também adoeceu, com demência.
Eu contratava cuidadora para poder trabalhar. Nos meses em que não dava para pagar, eu mesma ficava. Gerenciei o cuidado e a casa inteira, sozinha, durante quase duas décadas.
Em 2012 minha mãe parou de andar. Em 2023 eu saí do hospital onde trabalhava. Vinte e cinco dias depois, ela faleceu.
Meu trabalho
Comecei como enfermeira assistencial no Hospital Escola de Valença e terminei como diretora administrativa. Toda a minha carreira foi em serviço público.
A cidade não tinha atendimento em saúde mental. Implantei.
Serviço novo, com acolhimento às famílias — onde a maioria das redes falha.
Trouxe o serviço para a cidade. Antes, bebê grave precisava sair daqui.
Fiz o projeto executivo de abertura e implantei a enfermagem obstétrica.
Também liderei em Valença a construção da primeira linha de cuidado para mulheres vítimas de violência do município. E participei do projeto executivo do Hospital Municipal de Sapucaia.
Uma noite
Tinha uma menina para nascer com menos de meio quilo. A equipe queria fazer o parto na unidade adulto. Eu, como diretora, coloquei o problema na mesa: se ela nascesse ali, o tempo de transporte até a maternidade tirava qualquer chance dela.
Chamei o coordenador da UTI, a fisioterapia e a enfermagem. E a gente ficou em pé, na porta do centro cirúrgico da maternidade, esperando.
Ela nasceu às oito da noite, com 470 gramas. Ficou seis meses internada. Teve alta.
Hoje
Fundei o Instituto Cuidado Integral Humanizar e faço parte da coordenação do Rio de Janeiro do Movimento Nacional de Mulheres Cuidadoras Parentais Informais, que reúne mulheres do Brasil inteiro que cuidam de alguém.
Minha família hoje somos três: eu, o Bruno e a Fernanda — que nasceu por fertilização in vitro, depois de duas cirurgias, e hoje faz aula de canto e de violão.